Parto do coração

“Gravidez do coração” e “parto do coração” são termos utilizados pelas famílias que vivenciam a maternidade/paternidade através da adoção. Tentarei aqui explicar sobre este período com o objetivo de esclarecer esta fase tão especial para os pais adotantes e também para os familiares e amigos próximos.

O que quer dizer esta tal gravidez do coração? Bom, posso começar dizendo que ela é mais real que parece.

Segundo o dicionário Aurélio a palavra gravidez significa o estado de uma mulher grávida, gestação. Já a palavra coração quer dizer: é um órgão musculoso, centro do sistema de circulação do sangue, conjunto de sentimentos, centro da sensibilidade, da afeição, do amor. Objeto do afeto de alguém. Consciência ou memória. Conjunto de características morais ou psicológicas. Coragem, valor. Parte mais interior de algo. Parte mais central ou mais importante de algo.

Analisando o significado de ambas as palavras consegui desenvolver a seguinte explicação para a gravidez do coração:

“A gravidez da adoção se dá no coração, este órgão que fica localizado no peito e que está cheio de sentimentos, sensibilidade, afeição e amor por um ser que não foi gerado embaixo dele (na barriga), mas DENTRO dele. Temos consciência da realidade desta gestação, adquirimos muita coragem para enfrentá-la e aprendemos a mensurar o seu valor durante o tempo de espera.”

Falando de parto, sabemos que existem diversos tipos, normal, cesárea, humanizado, e, também o parto do coração. Todos estes partos tem como pré-requisito saúde física e mental para serem bem-sucedidos. Para aqueles que não tinham ideia da existência deste último tipo de parto, fico feliz em saber que a partir de agora ele não será mais ignorado ou subestimado.

Como colocar em palavras as sensações de um parto invisível aos olhos humanos? Como já passei por um parto do coração, farei o possível para torná-lo compreensível.

Quando recebemos a ligação da pessoa que está intermediando o processo de adoção, com a informação positiva de que chegou a nossa vez, é como se estivéssemos entrando em trabalho de parto. Neste momento sentimos uma emoção incontrolável, nervosismo à flor da pele, felicidade sem tamanho. Porém, também é um momento delicadíssimo pois nesta hora percebemos que o nosso filho está sob os cuidados de outra pessoa. E, muito provavelmente, ainda não temos todas as informações necessárias para ficarmos mais tranquilos, e pensamos em todas as possibilidades, como por exemplo: Será que está em um abrigo passando frio? Está bem alimentado? E se ainda está no hospital, será que está com algum problema de saúde? É muito importante nesta hora tentar manter a calma e o auto-controle para aguentar todas estas contrações da mente, e focar no próximo passo, o parto.

Até o momento do grande encontro, o nascimento, nosso coração fica como aquela música da Marisa Monte que diz “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você…”, e é bem assim, mas ele pulsa tanto que parece que vai sair pela boca, sem exageros!!!

O rompimento da bolsa se dá quando chega o momento de sair de casa para ir ao encontro deste amado filho. O líquido amniótico é o amor que não conseguimos mais conter e começa a transbordar do nosso peito. Enfim, é chegada a hora do parto! Quanta dor, quanta angústia, quanto medo, mas na hora em que o nosso filho nasce, na hora em que encontramos ele pela primeira vez, toda a dor desaparece. É o milagre da vida!!

Me lembro como se fosse hoje, eu e meu marido no carro, indo ao encontro do nosso primogênito. Parecia uma cena de filme. Em meia hora passou um resumo de toda a nossa espera na minha mente. Na hora do nascimento, no momento em que ele foi colocado nos meus braços, eu o aproximei do meu peito e sussurei para ele: “Nós te esperamos tanto meu filho, tenha a certeza que você já é muito amado!”. Ao meu redor parecia que tudo estava parado e em silêncio, mas eu sabia que os céus estavam vibrando com mais uma família formada pelas mãos de Deus. Lágrimas escorrem do meu rosto só de lembrar deste momento lindo, único, abençoado. Sempre digo que foi como se eu tivesse recebido um beijo do céu. (Faço referência aqui ao livro “O beijo do céu” da Darlene Zschech)

Quanto aos cuidados do pós-parto, os pais também devem ter uma boa alimentação e descansar pois passaram por um nível elevadíssimo de estresse e precisam estar bem dispostos para estes primeiros dias com o tão sonhado filho. Este início é essencial para a conexão entre os pais e o filho. Apesar da grande ansiedade da família e amigos mais chegados, é primordial que seja reservado a maior parte do tempo somente entre os pais e a criança. Segundo a Dra. Bobbi J. Miller, terapeuta especialista em adoção da Universidade de Saint Louis, “A criação do vínculo faz parte de uma construção de relacionamento. Isso leva tempo, e está ok. Na verdade, muitos pais biológicos também dizem que não sentem o vínculo imediato como pensavam que teriam. Frequentemente este vínculo leva alguns dias ou semanas de cuidado com a criança – alimentação, vestuário, troca de fraldas – para que o laço eterno seja formado”.

Meu anseio é que após a leitura deste texto você tenha entendido um pouco mais sobre o parto do coração. Espero ter colaborado para a elucidação dos fatos, tornando este processo invisível mais visível para os pais, familiares e amigos mais chegados.”

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10 comentários sobre “Parto do coração

  1. Tenho lido muito sobre adoção, pois decidi que chegou a minha hora de adotar.
    Desde muito pequena falo que meus filhos seriam adotados. Não tem explicação do porque desta vontade desde menina.
    Hoje, tenho 28 anos e sou solteira, não sei ainda quais barreiras terei de fato que vencer. Mesmo sendo heterosexual e sabendo que hj casais que são homosexuais adotam, tenho meus medos de não conseguir por ser solteira. Mais tenho também a certeza de que não vou desistir até ser mãe do coração.
    Ao longo deste ano de 2014 venho amadurecendo a ideia, primeiramente este processo foi totalmente interior. Em agosto chamei a minha mãe para passar uns dias na minha casa para contar a ela a decisão tomada: eu iria mesmo adotar uma criança, aquela que eu falava desde os meus, sei lá, 10 anos de idade. A reação dela foi a melhor e mais surpreendente possível, e não era de espanto claro, afinal eu sempre falei, mais ninguém estava esperando para agora. Mais ela adorou a ideia de ser avó novamente (minha irmã tem um filho biológico de 14 anos).
    Já me dirigi ao fórum da minha cidade e em janeiro irei entregar a documentação e fazer o cursinho na segunda quinzena de fevereiro.
    Gostaria de parabenizar pelo site, estou adorando e tem sido muito útil para esclarecer algumas coisas, ter certeza de outras e vencer alguns medos. Afinal, quem não os tem?! rsrs
    Grande abraço.

  2. Oi, Lu, adorei seu blog e estou me identicando bastante com ele. Estou em processo de adoção, já receber a carta da juiza deferindo meu pedido (uma felicidade que não cabe em mim)..kk.. E se antes achava que estava ansiosa, agora que a ansiedade aumentou..kk…pois não paro de pensar nele ou nela. Já quero começar a comprar as coisas do quarto, mais claro neutro, pois não sei qual será o sexo da criança. Beijinhosss

  3. Adorei o seu texto e sua história. Me identifiquei por completo. Estou muito feliz com o resultado da minha gravidez de coração. Meu filho é lindo, saudável e muito amado. Aconselho a quem desejar ter uma gravidez de coração que realize seu sonho, pois é uma experiência inimaginável. Agora lembrem que a responsabilidade é enorme e que não tem como haver arrependimento. Portanto pensem bem e se mesmo assim se decidirem viajar nessa experiencia, aproveitem!

  4. Amei seu blog!Parabéns pela iniciativa, quando descobri que não poderia gerar meu filho fique muito chateada, mas sempre falei que se não pudesse ser mãe da maneira normal iria adortar e seria mão do coração!Estou amando cada post seu, e me identificando cada vez mais com seus contos!Eu e meu marido iremos dar entrado nos papeis semana que vem!E faremos o curso na 1 semana de agosto.Estamos bem esperançosos!!!

    Obrigado por dividir sua historia conosco!

    abç
    Att
    Núbia

  5. Olá, tenho lido seus textos, e estou decidida a adotar. A cada texto fico imaginando como será meu filho, o que comprar, e tudo que posso e vou fazer. Sonho com meu filho em meus braços, a risada o choro, será sempre a melhor risada e o melhor choro.

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