Gravidez do coração

Sim, a gravidez invisível é real!

“Falar sobre adoção é falar sobre uma importante decisão da minha vida. Foi uma escolha consciente que alguns apoiaram porém outros não compreendem até hoje. A maternidade pela adoção não foi a minha última opção, como muitos pensam. Acredito que a vida se apresenta de forma única e especial para cada pessoa. Esta é a minha história de vida. Estou feliz com a minha escolha? Sim, muito. E como foi a sua tomada de decisão, o processo em si, a espera? Bom, essa resposta é tão complexa que precisei criar um blog chamado “Gravidez Invisível” para me ajudar nesse processo. Através de uma incessante busca por literatura, textos, matérias sobre o assunto, não encontrava algo que falasse sobre a gestação do coração em si, sobre esta doce espera de ser mãe através da adoção.

Procurei em inúmeros sites na internet sobre gravidez do coração, gravidez psicológica, gravidez invisível, encontrava poucos recursos no Brasil. Poucos porém valiosos. Leio e cito vários no blog. Mas compreendi que este é mais um dos temas que o nosso país ainda está engatinhando. Como nação temos muito que compreender sobre o real significado da adoção.

Infelizmente ainda existe muito preconceito. A adoção não é uma maternidade de segunda categoria, sinto muito por aqueles que pensam assim. Existem pessoas que pensam que todo filho adotivo trará problemas para família. E ainda se fala do filho de criação, que antigamente era “acolhido” por uma família mais favorecida financeiramente, mas este não tinha os mesmos direitos e tratamento dos demais filhos. Inclusive era tratado como um criado da casa. Adoção não tem nada a ver com isso. Segundo o dicionário Aurélio, adoção é o ato jurídico pelo qual se estabelece relação legal de filiação. Filiação significa a designação dos pais de alguém. A melhor definição que encontrei para entender a adoção foi da psicóloga e presidente do Grupo de Estudo e Apoio à Adoção no Recife Suzana Schettini, “A adoção é apenas uma outra forma de se chegar à família. Na verdade, todas as crianças precisam ser adotadas para se tornarem filhos, porque a filiação somente acontece através dos vínculos afetivos, ou seja, pela adoção. Assim sendo, todos os filhos precisam ser adotivos, mesmo os biológicos, ou não serão filhos de fato. Os pais que não adotam as suas crianças afetivamente, são apenas genitores”. Eu tenho plena convicção de que gestei o meu filho. A gestação da adoção é invisível aos olhos humanos, mas muito real para aquela pessoa que está gestando. Inclusive pode levar muito mais do que nove meses. A minha primeira gestação durou nove anos. Tive tantos anseios, dúvidas, desejos, inseguranças, ansiedade, dores, tanto quanto em uma gravidez biológica.

“A gravidez da adoção se dá no coração, este órgão que fica localizado no peito e que está cheio de sentimentos, sensibilidade, afeição e amor por um ser que não foi gerado embaixo dele (na barriga), mas DENTRO dele. Temos consciência da realidade desta gestação, adquirimos muita coragem para enfrentá-la e aprendemos a mensurar o seu valor durante o tempo de espera.”

 

Porém não temos os paparicos, os presentes, as fotos, a compreensão, os mimos…. É claro que a gravidez física tem as suas diferenças visíveis no corpo e que precisam de um cuidado com a saúde. Mas se a grávida do coração não cuidar para manter a mente e corpo saudáveis, também não estará pronta para o parto. Vejo muitas mães comparando o parto natural com a cesárea ou mais recente com o parto humanizado. Bem, apresento-lhes então o parto do coração. O meu estava prestes a estourar há anos, até que chegou a minha hora. A tão famosa boa hora. E foi boa? O parto do coração é muito difícil. Difícil até de colocar em palavras. Ninguém entende o que passam os pais do coração nessa hora, a não ser outra pessoa que tenha passado pela mesma situação. Isso dificulta? Sim, a falta de suporte neste momento crucial dificulta muito. Mas sobrevivi.

E agora estou aqui para compartilhar toda esta experiência que me trouxe tanto crescimento, mais respeito com as escolhas do próximo, e entendimento de que cada um tem o seu próprio caminho a trilhar. Quanto ao meu caminho, tenho cada dia mais clareza de que fiz a escolha certa, de acordo com minha essência, com a minha verdade. E muito realizada, sim, sou uma mulher e mãe plenamente realizada. Não tenho dúvidas de que a adoção foi uma doce ação divina na vida minha vida e da minha família.”

“O filho adotado não vem de fora; vem de dentro, do mesmo modo que o filho, biologicamente gerado, vem de dentro e não de fora. Se a adoção se efetiva, em muitos casos, como consequência de transtornos biológicos, fisiológicos ou psicológicos, a geração biológica de um filho nem sempre ocorre dentro dos padrões ideais de expectativa. Isso nos leva a pensar que, certamente, não seria estranho, usar a mesma expressão para as duas situações: tanto os que têm filhos biológicos quanto os que os têm por adoção geram, verdadeiramente, seus filhos. A inexistência dos laços genéticos não invalida as relações parentais.” 

Luiz Schettini Filho

Gerar significa dar existência a, formar, originar, criar, conceber,  produzir,  desenvolver, dar vida. Palavras que se aplicam perfeitamente a fecundação e a gestação de um novo ser. Mas também se aplica perfeitamente aos pais que decidem adotar. É preciso gerar dentro de si uma vontade, produzir condições para receber essa criança. E para tudo isso existe um tempo de gestação, de formação – nesse caso não da criança, mas de nós, pais. Um tempo para a gente se desenvolver até que chegue o momento de todos nascermos para essa nova etapa de amor incondicional.

“Procriar é uma condição dada pela natureza; criar é uma responsabilidade no âmbito da ética entre os homens. É nessa relação que identificamos um dos momentos cruciantes da estabilidade humana: o desnível entre criar e procriar. Procriar é um momento; criar é um processo. Procriar é fisiológico; criar é afetivo. A adoção do filho se insere exatamente aí: na atitude e nos atos de criação no sentido físico e afetivo. O filho, que era sonho, e por ser sonho, tinha a condição fundamental de ser realidade, afirma-se como filho, não pelo processo biológico e fisiológico do nascimento, mas pela adoção afetiva dos pais que, incondicionalmente o amam.” 

Luiz Schettini Filho

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2 comentários sobre “Gravidez do coração

  1. Estava procurando como poderia fazer um chá de bebê pró meu presentinho que Deus irá me enviar e me deparei com seu blog já estou me identificando muito com os anseios que VC teve.
    Estou planejando muito minha gestação do coração.
    E deis de já vou agradecer por cada palavra que VC digitou pra nós ajudar.

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