Adoção: “O nosso amor a gente inventa” Cazuza – por Betina Beinder

Queridos,

É com muita gratidão que compartilho o primeiro texto de mais uma parceira da nossa missão de levar a nova cultura da adoção pelo país. Betina Beinder é advogada e atua na área da família em favor de menores e mulheres. Segue abaixo o texto dela, aproveitem!!!

Beijos, Luciane

O nosso amor a gente inventa” Cazuza

A invenção é a mãe de tudo: com criatividade o ser humano inventou o mundo e tudo ao seu redor. Criou para desfrutar tudo diuturnamente . Transforma o mundo para o bem e para o mal.

Como vivemos em sociedade, regras foram criadas para que todos possam viver em harmonia. Uns conseguem, outros não, uns podem e outros nem tanto.

O grande norte e desafio na Vida é tentar “ser feliz” nesta estrada que nos foi concedida pelos nossos pais. Os chineses dizem que temos o “yin” e o “yan” dentro de nós, ou o Eros e Tanatos, conforme a psicanálise, sendo dois instintos que se embatem e que nos levam para frente.

Um aspecto a ser observado é o da mortalidade e imortalidade- tudo anda sempre em dicotomia, em complementação. Artistas se dizem imortais pela sua arte e por outro lado, mortais se perpetuam pela paternidade e maternidade.

Nosso foco é este assunto e seus desdobramentos . Muitos pais tem seus filhos naturalmente, de diversas formas hoje convencionadas socialmente e cientificamente, outros os tem através da adoção.

Sem conseguir tê-los de diversas formas, inventou-se tal instituto legal para permitir que o ser humano se perpetue e experimente tal felicidade.

O movimento “Gravidez invisível” vem fazendo um belo trabalho ao incentivar e esclarecer sobre o assunto e incentivar que pais adotem crianças abandonadas. Ambos lados saem ganhando.

Você se imaginou em um orfanato ao meio de tantas crianças ao seu redor – sem futuro palpável?

Você se imaginou querendo muito ter ou aumentar sua família – e se ver sem possibilidades, vendo a palavra “impossível” na sua Vida?

Aí, vem seu lado criativo, seu lado transformador, seu lado de inventar: conclui que há uma possibilidade. A adoção é uma delas.

Se alegra ao ponto de chorar, se alivia ao ponto de sorrir, se inquieta, se pergunta e dorme com incertezas, perguntas e um belo filme passa na sua cabeça.

Acorda no dia seguinte e se lembra: é possível ! E se pergunta: como? Imagina na sua cabeça: quem será meu filho/a?

Com seu lado inquiridor, procura na internet, sai do seu “eu” e corre atrás do seu sonho. Quer exercer a alteridade.

A adoção tem dois lados: do adotante e do adotado. Ela faz bem para ambos. Tudo o que é bom para ambos, está valendo e existe em equilíbrio!

Há milhares de crianças por todo nosso lindo país abandonadas, relegadas ao poder do Estado em abrigos, sendo cuidadas em orfanatos e demais casas para menores abandonados. Imagine: se já é difícil educar seu filho, imagine crianças sendo educadas sem vínculo afetivo – o que faz TODA a diferença.

Essas crianças estão lá, bem cuidadas ou não. Existem orfanatos em que as crianças são muito bem cuidadas, de ficar boquiaberta e feliz da vida. O outro lado, em locais em que o bom cuidado não ocorre- existe também.

Mas está na hora em que algo seja feito. Conclamo os leitores a, pelo menos, pensarem nisso ao verem seus filhos e os de seus amigos. Há crianças e casais sem a possibilidade de viver isso o que vocês vivem.

Há, obviamente, casais e pais e mães do outro lado- não querendo seus filhos, os abandonando. Se somente os abandonarem e deixarem-nos em abrigos, há de se agradecer. No entanto, há genitores que – por diversos motivos – os fazem sofrer com agressão física e psicológica: batem, não os alimentam, não lhes alcançam escola, lhes dão o mau exemplo, lhes mostram o caminho da criminalidade, entre outros descaminhos, só para citar alguns ocorridos lidos na mídia nacional que atestam tal violência para com seus filhos .

Estes pais não merecem ter a guarda de seus filhos porque não a exercem dignamente. Suas responsabilidades de pais não são exercidas por eles mesmos. Em tais casos, seu pátrio poder pode ser retirado pela Justiça.

Este é o portão de entrada para que pais que queiram adotar tenham a possibilidade de ver seu sonho concretizado.

Na realidade, pais sanguíneos e violentos nem condições tem de serem pais ou assim serem chamados.

Então, o Estado pode ser chamado, através dos Conselhos Tutelares para salvaguardar tal bem maior que é o bem estar da criança.

A Justiça pode destituir o pátrio poder dos pais biológicos, conforme o caso, sendo esta outra situação na qual o menor não será abandonado, mas conduzido para viver com parentes ou abrigos a fim de ser adotado.

Aqui cabe colocar relatos ouvidos de pais que estão na fila da adoção nos foros de diversas cidades brasileiras. O Estado entende que primeiramente deve ser tentada a colocação do menor que teve pais violentos na sua família de sangue, procurando parentes que queiram recebê-la. O que se vê é que nem sempre os familiares sanguíneos desejam esta criança. Aí, passam-se anos até algum familiar ser encontrado e ouvido, ouvida a criança, e ouvido o MP para dar seu parecer. Até que se passe por estes passos judiciais, a criança cresceu e ficou sem ter a chance de estar em família – adotiva no caso- que a quer, a deseja afetivamente como filho.

Percebe-se que neste item, o Estado tem como “um direito menor” aquele direito em que os pais adotivos tem de adotar esta criança. O Estado procura anos em vão pela família sanguínea, pelos tios, primos ou avós, enquanto há na fila de adoção homens e mulheres, e agora recentemente famílias homo-afetivas, desejosas de compartilhar sua vida familiar com uma criança.

Creio que cabe a nós lutar para que este direito dos pais à adoção seja equânime ao direito dos parentes de adotar o menor abandonado ou até ser considerado como mais importante até – porquanto tal desejo verdadeiro irá impedir ou minorar a estada deste ser ainda frágil, criança de tenra idade, em albergues ou casas de menores. Havendo manifestação dos pais em não mais exercerem o pátrio poder, rapidamente o Estado deve alcançar este direito àqueles pais sucessores dos sanguíneos – aqueles já à espera e habilitados pela Justiça à adoção: o que levará o menor abandonado a experimentar o amor familiar. Esta é uma das lutas transformadoras do mundo – através do amor, como já dizia Cazuza e nós dizemos.

Betina Beinder

OAB/RS 39.640

Email: beinder.betina@gmail.com

SO ROSTO P COLUNA

Betina Beinder, brasileira e alemã, advogada, professora, mora em São Leopoldo-RS. Advoga há 19 anos e atua na área de família em favor dos menores e mulheres. É pesquisadora sobre gênero no âmbito jurídico e linguístico. Pertence ao IGALA (International Gender and Language Association), tendo publicado um estudo sobre marcas de gênero em contextos de violência doméstica à luz da Lei da Maria da Penha. Atua também como perita tradutora e intérprete do TJ-RS para língua inglesa. Coordena e ensina línguas estrangeiras na Beinder Idiomas.

O que acontece com as crianças que não foram adotadas?

Ao chegar à maioridade, órfãos sofrem com um segundo abandono.

Abandonados pela família e esquecidos pelo estado. Os órfãos chegam aos abrigos com diferentes idades, mas o prazo de saída é único. Chegar aos 18 anos é a sentença irrecorrível ao novo abandono para aqueles que não foram adotados. Mesmo contra a essência das políticas de proteção do poder público, os jovens são deixados por sua própria conta e risco. Uma interrupção brusca de seus relacionamentos dentro dos lares e principalmente na sua formação profissional. Sem alternativas, os jovens voltam ao ponto de extrema vulnerabilidade social.

Aliás, planejamento é palavra de ordem quando o assunto é proteção da criança e do adolescente. O promotor de justiça, Murillo Digiácomo, 43 anos, defende uma ação conjunta de vários órgãos públicos. “O poder público não deve e nem pode, legalmente falando, abandonar esses jovens. É desumano arquivar um ser humano, apenas por que ele é maior de idade. O estado tem a obrigação de ajudar esse adolescente até ele adquirir autonomia. Infelizmente, muitos departamentos não tem conhecimento dessa especificidade da lei”, afirmou o promotor.

A preocupação em liberar o filho para o mundo também tira o sono dos educadores dos lares. A discussão sobre a idade ideal volta à tona juntamente com o fator dependência afetiva que os órfãos desenvolvem ao longo do crescimento.

A assessoria da 2ª Vara da Infância e Juventude declarou que o acompanhamento das crianças é feito até os 18 anos. Após atingir a maioridade, o jovem já não é mais considerado responsabilidade desse setor e fica a critério dos lares darem abrigo para eles ou não.

A discussão vai além das obrigações das instituições específicas. O promotor ressalta a importância do poder público assumir para si a responsabilidade por esses jovens adultos, com um plano eficaz para terminar a formação desse cidadão. Todavia, é questionável até qual idade esse acompanhamento deveria ser feito. “Não sei, cada pessoa tem seu tempo. Nós temos inúmeros exemplos de pessoas que ficam até os 30 anos na casa dos pais. Não queremos que o jovem fique ‘encostado’ no estado, mas defendo que cada um amadurece em idades diferentes”, falou o promotor Digiácomo.

Os Centros de Apoio a Criança e ao Adolescente, as instituições que abrigam os jovens e seus educadores lutam para desmistificar a ideia de que se está fazendo um favor aos adolescentes os criando. Eles querem mostrar para o estado que os órfãos são seus filhos também.

Escrito por Mariana Ceccon
Fonte Jornal Centro Cívico

http://www.hopehouse.com.br/portfolio/o-que-acontece-com-as-criancas-que-nao-foram-adotadas/

“A verdade da filiação está no amor, está no cuidado, no afeto, no olhar”, Sávio Renato Bittencourt S. Silva

Queridos,

Vale muito a pena assistir estes dois vídeos do Dr. Sávio sobre a realidade da adoção no país.

Ele explica que infelizmente o sistema do país hoje condena perpetuamente as crianças a ficarem nos abrigos, deixando a adoção para extremo e último caso. As 80 mil crianças que estão nos abrigos não estão lá porque famílias adotantes as devolveram, mas estão lá porque famílias biológicas não cumprem o seu dever constitucional de dar as crianças amor e respeito.

Ele fala também da luta dos pais adotivos e grupos de apoio à adoção pela nova cultura da adoção considerando que “A verdadeira filiação está no amor, está no cuidado, no afeto, no olhar”.

Palestrante: Promotor de Justiça RJ e Presidente da ANGAAD Dr. Sávio Renato Bittencourt S. Silva.

Adotar ou Experimentar? Criança: Sujeito de Direitos ou Objeto de Devolução – Parte 1

Adotar ou Experimentar? Criança: Sujeito de Direitos ou Objeto de Devolução – Parte 2

Sobre

Sávio Bittencourt é autor e escritor de diversos livros tais como A Nova Lei da Adoção, A Revolução do Afeto, Guia do Pai Adotivo e sua luta é para que TODA CRIANÇA TENHA DIREITO A UMA FAMÍLIA.
 
Biografia

Pai adotivo e biológico, o Procurador de Justiça Sávio Bittencourt é um dos fundadores do Quintal da Casa de Ana – Grupo de Apoio à Adoção de Niterói, foi Presidente da ANGAAD (Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção) na gestão 2007-2009. É autor dos livros “A Nova Lei da Adoção – do abandono à garantia do direito à convivência familiar e comunitária”, “Revolução do Afeto” e “Guia do Pai Adotivo” e articulista do jornal O Estado (CE).

Fonte: