Depoimento da Fabiana: A história da minha família colorida

Queridos que depoimento mais lindo da Fabiana sobre a sua família.

Tenho certeza que vocês vão se emocionar (assim como eu…!). Beijos Lu


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Vitinho e Alex

A história da nossa família se completou com a chegada do Vitinho Bombom, como era conhecido meu neném no abrigo.
Eu e meu esposo Marcio pensávamos em ter apenas um filho. Tivemos um bebê em 2005, Alex, nosso filho biológico.
Quando Alex tinha 4 anos, resolvemos que queríamos o segundo, mas nas três vezes que tentei engravidar sofri aborto por causas diferentes. O médico sugeriu inseminação, pois, segundo ele, no meu caso, o procedimento tinha grande possibilidade de sucesso. No entanto, não era raro ocorrer mais de um aborto antes de conseguirmos, ou mesmo termos trigêmeos ou gêmeos, algo fora de nossos planos.
Pensamos muito e decidimos que era um absurdo passarmos por tudo isso, já que o que queríamos era um filho e não exatamente a gestação. E o filho poderia vir de qualquer lugar.
Temos amigos que são filhos adotivos, temos primos que são filhos adotivos, e em todos esses casos, a adoção ocorreu de maneira tranquila, sem traumas e até hoje todos estão vivos e felizes (risos).
Pensamos nos filhos de nossos amigos e o quanto gostamos daquelas crianças, simplesmente porque os conhecemos e convivemos com eles, ou seja, eles não tem nosso sangue, nosso DNA, e mesmo assim, se preciso fosse, ficaríamos e criaríamos aquelas crianças como se tivessem nascido de nós.
E se gostamos tanto daquelas crianças, mesmo elas não sendo nossos filhos, porque não iríamos gostar e amar alguém da mesma forma ou mais, por meio da adoção?
O segundo passo foi: como a criança seria? Sim, pois a gente tem que pensar bem nisso. Tem que analisar se temos algum tipo de preconceito entre o casal ou na família. Quem tem a cabeça toda cheia de medos a esse respeito, é bom repensar a adoção e trabalhar bem isso antes de tomar uma decisão. Afinal: FILHO É PRA VIDA TODA.
Sempre tive em mente que gente é gente. Não importa se é homem, mulher, gordo, magro, branco, amarelo, preto ou lilás.
Conversei com meu esposo, que é neto de japoneses. Na família dele só tem eu de brasileira e branca e mais três pessoas (dois rapazes e uma moça brasileiros e brancos) que se casaram com os primos dele. Só. O restante da família é de descendente de japoneses.
Enfim, conversei com meu esposo sobre a possibilidade de sermos pais de uma criança muito diferente fisicamente de nós. Ele nem questionou nada, simplesmente disse que só queria UM FILHO a mais. Só isso. Que a nossa família estava muito pequena e queria mais um “molequinho” para animar a casa ou uma menina para enchermos das frescuras que toda mãe enche.
Por parte da minha família somos todos misturados. Tenho primos loiros, morenos, mulatos e também mestiços de japonês. Enfim, é uma salada. Portanto, com essa galera, eu nem precisava me preocupar se iria haver ou não aceitação de um novo membro que pudesse ser loiro, negro, mulato, indígena, hindu… Para falar a verdade, eu não me importei muito em saber a opinião de ninguém. A única opinião que importava era do futuro pai.
A possibilidade de ter um membro negro, ou mulato, ou mesmo indígena na família de meu esposo causou estranheza em algumas pessoas de lá. No entanto, as irmãs de meu esposo amaram a ideia não se importando em nada com a aparência do meu futuro filho. Quando comunicamos nossa decisão de adotar, o pessoal já começou a enviar fotos de bebês de todos os jeitos e peles de todas as cores para me animar ainda mais.
Mas digo que não determinamos uma criança negra, ao contrário, pois também seria preconceito definir a cor da pele do meu filho desse jeito. Deixamos a cor da pele em aberto no formulário de adoção, pois para nós não importava.
Passamos por todas as fases do processo de adoção, entrevistas, visitas à nossa casa, conferência dos documentos etc. Todo o processo de habilitação durou 12 meses.
Enfim, fomos habilitados. Agora estávamos oficialmente na fila.
Seis meses após a habilitação, toca o meu telefone. Eu estava no trabalho. A assistente social começou perguntando se eu ainda queria um bebê. Se eu ainda queria estar na fila de adoção.
Lógico que a gente ainda queria uma criança! Ela descreveu meu filho: “Fabiana, temos aqui em um dos abrigos da zona leste, um menino de 9 meses, que foi deixado pela mãe biológica assim que nasceu em um hospital de São Paulo. Tentamos localizar a família, mas até agora nada. O processo de destituição do pátrio poder já está em vias de ser finalizado, e a criança liberada para adoção. Ele é grande, forte, saudável e…..ele é negro.”
Respondi: “Eu quero ele, eu quero ele, é meu filho!” A assistente social repetiu: “Ele é negro, Fabi.”. Respondi:”Tá, eu já entendi. Quando posso vê-lo?” Ela reforçou:” É que ele é bem pretinho mesmo, não é moreno, ele é negro negro.”
Juro que na hora tive vontade de ter uma crise de riso, pois a reação da assistente social foi meio estranha.
Perguntei a ela porquê estava enfatizando tanto a cor da pele do menino, quer dizer, do meu filho. E daí? Para minha surpresa – eu julguei mal a assistente social -, ela respondeu que na maioria dos casos, o casal preenche o formulário pedindo uma criança independente de cor da pele. No entanto, na hora de conhecer a criança, costumam dizer que ela é “moreninha demais” e pensavam que fosse mais clara. A criança se decepciona se é devolvida; às vezes o casal nem quer ir no abrigo para conhecer; ou vai, pega a criança no colo, examina e devolve.
Meu queixo caiu. Não sabia que tinha gente assim. Logo respondi para a assistente que não era nosso caso. A gente queria ver o bebê. Eu já estava imaginando ser a mãe do próximo Denzel Washington, do próximo Thiaguinho, enfim; ficava imaginando já antes de conhecer, como seria o rostinho dele. Coisas que toda mãe imagina quando está grávida.
Ao chegarmos no fórum mostraram a foto da minha pecinha rara: sentado no cadeirão, bochechas gigantes, mãos enormes e OLHOS PUXADOS. Pois é. O moleque tem os olhos mais puxados do que meu filho biológico. Vai entender. Achei engraçado isso. No começo a gente procura pontos em comum com a criança. Mas depois percebe que não tem nada a ver. Que é doideira mesmo.
Fomos rapidinho para o abrigo e o responsável pelo local nos apresentou nosso anjo. De macacãozinho jeans, tênis, e um sorriso de canto a canto. Sorriso mais largo e sincero que já vi em toda minha vida. Sorriso mais lindo que uma constelação inteira. Sorriso do meu filho. Do meu caçula. Daquele que será eternamente bebê para mim. Mais lindo que Denzel, mais lindo que Thiaguinho, mais lindo porque é meu filho.
Durante quatro dias ficamos com Vítor duas horas diárias até ele se acostumar conosco. Trazíamos para casa e depois o deixávamos de novo no abrigo. Ele ia se soltando aos poucos. O amor foi se construindo entre nós aos poucos também. A cada troca de fraldas, a cada sorriso, a cada babada. Cada vez que tinha uma febrinha ou que cuspia a comida. Na hora do banho, na bagunça de jogar água pelo banheiro.

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Era um feriado prolongado. Feriado de Nossa Senhora.
No quinto dia, dia útil, ele veio definitivamente para nossa casa.
Foi uma correria esses cinco dias: montando berço, comprando fraldas, lavando as roupas guardadas “herdadas” do irmão mais velho e dos primos, porque a gente não ia ter condição de montar todo o enxoval de uma hora para outra.
Meus pais, minha avó e minha tia caçula vieram logo no primeiro dia que ele nos visitou (adaptação). Passou no colo de todo mundo. Foi uma alegria muito grande. Meu filho mais velho, de tão nervoso, na hora em que chegamos, não conseguia abrir a porta da sala, porque tremia muito.
Fomos comunicando a família aos poucos. A família do meu pai, muito numerosa, pediu para a gente levar o bebê até a casa da minha avó paterna. Minha avó paterna, a bisa Deth, como ele chama, deu nele um abraço tão gostoso que deu até ciúmes. Minhas primas e minhas tias ficaram doidas com a simpatia dele. Todo mundo ligou, mandou mensagem no facebook de felicitações, enfim, todos ficaram felizes. Minha família por parte de mãe veio até em casa e encheram ele de beijinhos e carinho.

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A tia caçula de meu esposo, sempre exagerada na generosidade com os sobrinhos, encheu de presentes e afagos. O mesmo ocorreu em relação ao esposo dela, nosso tio caçula. Todo orgulhoso com mais um sobrinho neto no colo.
Minhas cunhadas (irmãs de meu esposo) ficaram felizes demais e, como moram em outro Estado, demoraram um pouco mais para conhecê-lo pessoalmente.
Meus sogros, devo confessar, no começo estranharam. Eles são de outra geração. De uma geração que não admitia “misturar” as raças. Foram criados dessa forma, mas isso iria mudar em muito, muito breve.

Família Nakaya

Família Nakaya

Uma semana depois que o Vitor já estava em casa, eles o conheceram. Meu esposo foi firme em dizer que era nosso filho e ponto final. Igual ao mais velho. Sem diferença nenhuma. Nessa ocasião, minha cunhada caçula já estava em São Paulo hospedada na casa dos pais e também conheceu nosso pequeno, eu acho que ela ajudou muito nessa adaptação entre eles e sou muito grata às minhas cunhadas por isso.
O bebê abriu um sorriso largo, babou em todo mundo, porque os dentes estavam apontando, e se mostrou ultra receptivo com os avós. “Quebrou as pernas” de qualquer preconceito.
Depois disso, meu sogro agora diz que o menino se chama Vitor por causa dele (o apelido do meu sogro é Vitório) e que ele é um NAKAYA. E diz isso engrossando a voz, para demonstrar que o menino é “macho” igual ao avô. Pois é…coisas do tempo antigo.
Meu sogro, principalmente, anda na rua com meu filho como se fosse um trofeuzinho, pois o Vitor é alto, forte e, lógico, o menino mais lindo do mundo, mais inteligente, mais cheiroso, mais esperto, e por aí vai todo sonho do avô, pois, para ele, o Vitor não tem defeitos.
Meu pai acha que o Vitor torce pro Santos, e que vai jogar melhor que o Neymar.
Minha mãe acha que ele vai ser artista, porque é bonito demais.

Vitor_016
Minha sogra calcula que ele vai ter mais de dois metros, porque é praticamente um gigante.
Meu filho mais velho acha que ele vai dar trabalho e que vai infernizá-lo por toda a vida.
Meu marido viaja na maionese, imaginando o futuro Policial Federal manchete do Jornal Nacional.

Praticamente um herói, invejado pelos homens e desejado pelas mulheres.
Eu também tenho cá meus sonhos, ah, vai…toda mãe tem!

Abraços,
Fabiana Nakaya

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17 comentários sobre “Depoimento da Fabiana: A história da minha família colorida

  1. Chorando e feliz por vcc e por saber que existem pessoas tão especiais e escolhidas por Deus nessa terra de gigantes …, seus lindos que o Senhor posso abençoá-los imensamente a cada dia, bjos Mônica

  2. Só eu que morri de chorar e de rir ao mesmo tempo! Parabéns,parabéns MIL parabéns !! Vcs merecem ,família linda de encher os olhos !! Ameei Bjoss de coração.

  3. Parabéns pela linda história de vida. Mostra que as diferenças existem, que elas “chocam” sim, porém que com o amor verdadeiro elas podem ser vencidas e superadas!!!
    Linda sua família

  4. Fabiana, você tem toda razão!
    O Vitor é lindo, assim como Alex!
    Estou trilhando o mesmo caminho e peço a Deus para promover uma família tão maravilhosa quanto a sua! Obrigada por compartilhar conosco sua história!
    Parabéns!!!
    Mil bjos

  5. Obrigada pelo apoio, pessoal. E vamos à luta para tentar espantar os fantasmas que povoam e assombram a cabeça de todos que pensam em adotar. Xô, medo! Amar não é difícil.

  6. Emocionada! Que história linda!!
    Viva o amor! Que Deus abençõe sua famíla Fabiana!
    Vou mostrar para meu esposo a sua história, ele já aceitou a adoção, mas o medo ainda bate.E histórias assim como a sua , abre ainda mais o nosso coração para adoção.

    Estou bastante emocionada!
    Obrigada por compartilhar conosco sua linda história.

    Abraços!

    • Iracelma, em nossa família são mais três casos de adoção, e todos muito felizes. Tendo amor, tudo vai correr bem. Não crie expectativas de um filho perfeito, pois filhos são seres humanos, vindo eles do nosso ventre ou do ventre de outra pessoa. Dor de cabeça toda criança e adolescente dá rsrsrs. Mas com paciência e amor tudo se resolve, pois a alegria que eles nos dão compensa tudo. É muito bom mesmo. Não quero outra vida.

  7. Fabi, Parabéns por ser esse ser humano maravilhoso que você é.
    O Vitor e o Alex foram presenteados por Deus com uma mãe é um pai tão especiais, que tem o amor acima de tudo.
    Desejo toda felicidade do mundo para essa família linda que vocês construíram.

  8. Aos prantos….linda estória, linda criança…linda!!! Também quero passar por isso..Sei que meu filho já anda por aí, só não nos encontramos ainda…Deus abençoe vcs!!

    • ROSELI COM CERTEZA SEU FILHO OU FILHA A DE ESTAR EM ALGUM LUGAR ESPERANDO SEU ABRAÇO E TODO O SEU AMOR, CONFIE ELE CHEGARÁ QUANDO FOR A HORA CERTA.
      BEIJOS.

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